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a brindar sem água

"Vinho não é bebida alcoólica! É paisagem, história, etnografia, inspirador e coligado no evoluir do Homem. Tudo isso falado no copo!" - Eu

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Alcoolismo ou Vinismo

20.05.20 | manuel

Na propaganda que Patrocina, o Estado Novo assume-se como patrono e divulgador da definição que mais convém, à economia e que melhor se coaduna com as políticas protecionistas que que promove: o alcoolismo é provocado pelas bebidas destiladas, o vinho provoca o vinismo. Seja o alcoolismo doença ou vicio, o vinho não entra nessa discussão.

 

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O vinismo é uma sensação benéfica e passageira, sem efeitos prejudiciais para o indivíduo e para a sociedade. A distinção entre alcoolismo e vinismo é essencial para perceber a estrutura do discurso dominante acerca “da mais nacional das bebidas”. Um discurso que pertencia ao foro da medicina, assume caracter verdadeiramente político.

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Proclamando que o vinho provoca vinismo, que em nada é semelhante ao alcoolismo, liberta-se o vinho de toda a carga negativa que a designação encerra. Simultaneamente, o vinho sai da discussão sobre a definição de alcoolismo. O vinho pode assim prosseguir o caminho de prestígio que as tradições eruditas e populares lhe consagram.

Da cultura erudita salientam-se as dua referências marcantes. Por um lado, explora-se o sentimento de pertença à “comunidade mediterrânea”, isto é, à ancestral “civilização do vinho”, fundadora da cultura ocidental. Por oposição ao norte europeu povoado por bárbaros sem comparáveis pergaminhos. O “brilhantismo” dos povos que habitaram a bacia do Mediterrâneo, independentemente das suas culturas, crenças ou destinos, é evocado para confirmar a superioridade do vinho.

Por outro lado, socorrendo-se de minuciosas descrições das características químicas das bebidas fermentadas e destiladas, da opinião dos médicos e higienistas franceses, e de dados empíricos, conclui-se que os povos do Norte da Europa são decadentes e alcoólicos, porque consomem quase exclusivamente bebidas anti-higiénicas, isto é, destilados.

Na literatura de viagens dos séculos XVI, XVII e XVIII, já alemães, polacos, russos, ingleses, e outros povos, gozam da reputação de alcoólicos. Pelo contrário, italianos, franceses e sobretudo, os espanhóis, eram apontados como sóbrios. Mas o conceito de alcoolismo ainda não tinha nascido. Essas reputações, derivam da observação da propensão para a embriaguez, e da tolerância para com os embriagados. “Problemes politiques et sociaux, Paris, 1993, p.7”.

Era sustentado e autenticado por especialistas que o vinho era benigno, como alimento e medicamento. Apresenta-se o vinho como “alimento precioso”, e “reconstituinte energético”-“o mais antigo alimento usado pelo homem de civilização mediterrânea” (S. Maia, op. Cit.,p.9).

Mais ainda, “a força muscular é aumentada com o consumo de vinho. É um alimento radioactivo(…), um produto rico em vitaminas: daí a sua provada acção no tratamento de avitaminoses (A. d’Esaguy “ O vinho refaz o homem – palestra”, Lisboa 1936, p.9). Como medicamento, o vinho é aconselhado na prevenção ou no tratamento de grande número de doenças.

Estes discursos integram-se na intenção manifestada pelos países produtores europeus de declarar "guerra à guerra ao vinho". Dentro das linhas da política vitivinícola do Estado Novo, o propósito é muito claro: defender o vinho é ajudar a divulgação do produto e criar hábitos de consumo que permitissem escoar as sobras das adegas, beneficiando assim um dos sectores-chave da economia nacional.

Excerto do artigo "Freire, D. (1999). Propaganda Vinícola no Estado Novo. A bebida nacional. História, Ano XXI (Nova Série), 10, 21-28"